Do Ofício de Salvar Pererecas – parte 2

Lembrei agora:Tia Lourdes costumava chamar a gente assim “perereca”.
Falava “sua perereca” numa voz fina, ensinado como se fala com pequenos.
Eu devia ter falado assim com a perereca do banheiro…
Tia Lourdes chamava “perereca” aproximando o rosto da gente.
Balançava a cabeça branca e dava umas palmadinhas gostosas no nosso bumbum, a gente ria.
Tia Lourdes tinha medo das pererecas e fazia uma brincadeira com as mãos.
As mãos, uma em cima da outra, cantava: pinhé, pinhé, pinhé, pinhé…
E as mãos se soltavam.
Tia Lourdes lia livros pra gente, contava histórias.
Lembro bem a de um potrinho que chorava tanto porque se perdia da mãe.
Outro dia, folheei a história, procurei…
E vi que, no livro, o potrinho não chorava.
Eu chorei.

Cantei, cantei, cantei.
Lá no banheiro da casa de janeiro em Tiradentes.
Livre da perereca, lembrava das pererecas do passado.
Não se fazem mais pererecas como antigamente.
Não se fazem mais avós como antigamente.

Chorei no banheiro como fazia quando era criança.
Quando era criança, o mundo já me assolava.
Quando era criança, cantava também no banheiro como faço agora.
O mundo já me encantava.

O banheiro me trazia lembranças do passado.
E me sentindo assim, meio perereca, cantarolei o banho inteiro.
Cantei, cantei, cantei.
Pirei, cantei alto, desafinei.
Já viu perereca gritar?
Eu já vi perereca gritar.

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