viva sao joao, santo antonio, sao baco, viva a praça, viva viva viva!

Meus momentos de inspiração estão passando rapidamente. Mas faço exercícios para que a escrita desencante. E faço exercícios. Hoje, por exemplo, desci sozinha para a praça Santos Dumont – ainda escuto aquela canção que me toca profundo, da zabumba, da sanfona, da minha janela aberta. Também escuto, da minha janela aberta, o som da noite que já chega. Gosto destes sons. É som para quem escreve. E eu me inspiro. Fiz um exercício Clarice Lispector hoje. Desci sozinha à praça Santos-Dumont e assisti a um espetáculo de teatro – lindo, lindo – baseado em “Sonhos de uma Noite de Verão” de Shakespeare. Gosto de teatro e pronto. A adaptação trouxe Shakespeare para perto de nós e virou “Sonho de uma Noite de São João”. Deve ser sabido deles, da trupe da Casa da Gávea, que originalmente isto de ser “Noite de São João” tem tudo a ver mesmo com Shakespeare. Não é mera coincidência, livre adaptação, até porque esta festa de São João e muito de nossos mitos têm origem em festas pagãs adaptadas ao catolicismo, há muito, muito tempo atrás, na Europa. Mas só esse assunto já dá uma outra longa história. Este semestre estudei o “Sonhos” através de uma tradução portuguesa na qual o autor dá o título justamente de “Sonho de uma noite de São João” e o justifica bem embasado nisto. É bem interessante. Em outro post coloco as palavras deste tradutor. Taí, pensei, porque não montaram ainda “Sonhos de uma Noite…” numa grande festa de São João, com muito forró, um musical! As idéias flutuam e hoje fui conferir esta montagem. Que ótimo o que fizeram. A adaptação ficou redonda. E fiquei feliz com o que vi. E foi assim uma alegria assistir a um belo espetáculo, cheio de crianças no chão, eu olhava ao redor e via o público, a praça toda com sorriso no rosto. Não é por nada não, é porque o povo gosta de teatro, gosta de fantasia, gosta, gosta. Por que não merecemos mais disto?! Só lixo, só merda goela abaixo. Poxa, devia ter mais disso de espetáculos, teatros, alegrias pelas praças do Rio de Janeiro. O baixo Gávea ficou tão mais bonito, encantado, do que quando fica com aquele bando de gente – gente parada, bebendo parecendo um bando de ventilador de pé – rodando a cabeça de um lado para outro, olhando, olhando, vendo a vida passando. E sem fazer nada. Nada.
Vamos chamar o vento, o vinho, a festa na praça. Blarg! Sou de outro lugar. (Sou de Passárgada, Atlântida, Mesopotâmia, sei lá!)
 
Depois quis ficar mais um cadinho por ali, observar mais. Então fui numa barraquinha e pedi um bolo. Um bolo de cenoura com calda de chocolate, me encostei num canto e, devagar, comi pedaço por pedaço, pra fazer hora, enquanto um quarteto tocava música de São João. E meu coração sempre, sempre que voa longe quando escuto uma sanfona e uma zabumba, voou mais uma vez. E vai pensamento, vai emoção, criação, idéias, vontades, tudo junto. E isso me fez feliz por minutos,
felicidade que dura o pedaço de um bolo de cenoura com calda de chocolate comido bem devagar, devagarinho, até que acaba.
Por isso subi para escrever, que há tempos não escrevia. Esse exercício de sentir a praça, o forró, e lembrança e devagar a vontade a alegria pareceu-me um exercício de Clarice, por isso escrever.
 
E essa peça na praça me levou para outro lugar, um lugar real onde passei bastante tempo da minha vida. O Sana. Não sei se vocês conhecem, mas o lugar é encantado. Ou eu é estava sob feitiço de um Puck qualquer… E eu me apaixonei pelo lugar. E também me apaixonei por lá. Risos. Mas essa é uma outra longa história. Boa também, mas outra… E lembrei desse jeito pé no chão, fogueira e festa junina na praça. Lembrei de mim também, sabe. De mim que sou e que fui. Lembrei do teatro que fiz na praça do Sana uma vez com um grupo de amigos atores, montamos “Saltimbancos”, um sonho que eu tinha. Foi bem mambembe, um fiasco, talvez, mas o público gostou, adorou. O povo gosta de encantamento, de uma boa história, bons personagens, boa musica. Coloca na praça pra ver. Coloca na praça pra ver se audiência não cai! Coloca na praça, no horário nobre, teatro em todas as praças, favelas do Rio, do Brasil! Vamos ver se o povo não gosta de coisa boa. Coloca na praça pra ver se a qualidade da programação não muda! Coloca na praça pra ver se a violência não diminui. A lenda, o folclore vem da gente, é da gente. Ainda nos perguntamos sobre a morte, sobre a magia, sobre tudo. E temos muito a falar como Emilia. Como Macunaíma. Chega de fofoca na tv! Viva o Sitio do Pica-Pau Amarelo! Viva Monteiro Lobato, o Casé e a Derci Gonçalves! Ainda não perdemos a possibilidade de nos encantar! Ora, ora.
Blorg! Como eu me contamino pelos meus sonhos. Sempre sonhei assim desse jeito. Contagiar o mundo de espetáculos, de circo, de ciranda, de dança. Pelo menos um pouquinho, vai? Realizar é tão mais difícil. Mas aí está o grande desafio da vida. Viver conforme a obra, a arte e o artista cara a cara, sonho e realidade, se multiplicando em um.
 
E lembro de um dia que teve uma quadrilha enorme da praça do Sana e todos dançaram juntos, gente amiga, e gente que não se conhecia também. Tinha muita alegria por lá. Fiz muitos sonhos com aquele lugar. Às vezes penso: e se tivesse ficado? Quem seria eu hoje? Ninguém nunca saberá. Não fiquei e hoje sou uma pessoa muito feliz com tudo que faço, com quem amo, com o que crio. E lá plantei amores, amizades e guardo uma bonita história de mim. Cheia de lembranças e estrelas cadentes. Um dia conto para quem quiser ouvir. Agora, se lembrei, se falei, foi só para matar a saudade.
Porque saudade devia ser um verbo. Verbo Intransitivo, sem objeto de saudade nenhum. Porque saudade é um estado. Não um sentimento. É um estado. Como eu sou, como eu estou, como eu saudade.
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