Zélia

Hoje o dia nasceu bonito para ela. Bonito como ela. E se o dia hoje completasse 94 anos, ele se chamaria Zélia.

E todo meu dia 26 de abril é para ela, para lembrar dela, para celebrar ela, tão anônima, tão popular. Vida simples. Dedicada à família, aos filhos, aos netos, à caridade e aos bichos. Franciscana. Dona Zélia de Copacabana! Quem te conheceu sabe, uma sorte te ter por perto! Emotiva, doadora. Agregadora, promovia cozidos inesquecíveis. Me ensinou a gostar de caldo verde com agrião e a fazer café de meia (coador de pano), que faço até hoje de manhã para lembrar-me de quem eu sou.

Sou dela. Neta dela. Criada por ela.

Toda feita pelas mãos dela.

Tinha todo jeito com as mãos. E inventava as fantasias que eu ia dançar no Estella Maris, meu colégio. E naquele gigante de concreto e cruzes (o Estella Maris), o que me salvava eram as festas, esses teatros, essas danças.

(…é o que me salva até hoje. Meu filho também me salva…).

Guardava tudo em caixas, em seus armários infinitos, no seu apartamento de 2 quartos na Pompeu Loureiro 134 cheio de memórias, malas, roupas, maquina de costura, fotos, miçangas, linhas, retalhos, paetês… E quem me costurava, me rendava? Ela. E quem me costura, quem me sopra renda até hoje? Ela. É um amor tão pleno.

Entendo plenamente a alegria da palavra gratidão, quando falo dela.

E se ela estivesse aqui estaria enfeitada com algum colar, unhas feitas (sempre) e um bolo gostoso de chocolate feito pela Semírames para cantar parabéns.

Dona Zélia, como era conhecida por todos, enfeitava. Se enfeitava e enfeitava a vida de quem a conhecia. Era toda ouvidos. Sempre estava ali para acolher, quem quer que fosse. Sinto o cheiro dela, sinto o colo dela. Colo nenhum no mundo igual ao dela! Que bom que você nasceu e fez tanta gente feliz, minha vó. E que bom que você deixou registrado num vídeo antes de partir: “Valeu a pena!”. Que bom que para você valeu, para a gente (acho que posso dizer por muita gente), foi inesquecível sua passagem por aqui! Às vezes a gente se esmera tanto para deixar marcas, enquanto é somente isso: o fazer sincero, o simples, o básico, o bem, o de coração. É tudo.

Minha avó era tanto sentimento que repetia mais de três vezes quando amava: te amo, te amo, te amo, te amo… e assim sua voz ainda ecoa no meu coração.

Te amo.

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